O estrondo foi tão forte e demasiadamente alto como se o próprio demo o tivesse provocado em plena tarde de um dia claro.
Uma movimentação logo da esquina podia-se avistar, tamanho era o contingente.
Não longe dali construíam uma enorme avenida onde passariam mais de cem carros.
Um horizonte tão largo onde se tinha uma bela visão das chaminés das fábricas, há pouco tempo, ao fundo instaladas.
Vários outros casarios eu já vira serem demolidos para que as modernas edificações surgissem, porém o velho prédio que possuía muitos escritórios e onde funcionara um antigo grupo de advogados viera abaixo com o artifício de algo chamado dinamite.
O calor inundou meus pulmões, e a poeira e a fumaça eram engolidos inevitavelmente.
Desejei não estar ali, não gostaria que acontecesse aquilo.
Lembro-me das vezes em que tomo café simples na esquina oposta, onde funciona uma confeitaria famosa por suas tortas, receitas repassadas pela família há anos, toda a matéria prima preparada cuidadosamente.
Observava as secretárias em seus casacos à russa e seus saltos pontiagudos passando pelas ruas e calçamentos esburacados, fugindo dos olhares dos operários e tendo que desviar das poças que ainda ali recolhidas pela chuva refletiam os sobrados.
Enchia-me de culpa por esse desejo de preservar a eternidade como ela era. Meu peito queima.
As novas formas que vão surgindo me seduzem instantaneamente, mas se alinham com o mal.
A poeira rodopiante inebria desastrosamente como um feitiço asqueroso tecido especialmente forrado sob a desonra nas esquinas e nos becos e para as baratas.
Somente dando um gostinho ao acostumar a pouco da beberagem que provoca a todos a paixão mais avassaladora.
Consumiu-me em puro tédio, distante, num lugar muito árido e cada vez mais quente ao dia e frígido durante a noite. Bem no meio da multidão estou abandonado.
Ninguém mais parece pensar em Deus.
Relembro o velho caminho que fazíamos até a fazenda do mais velho irmão de meu falecido avô.
Sinto-me agora por entre os excluídos, dormindo entre as latrinas, me escondendo do vento nas galerias, pedindo comida na porta noturna dos recém-inaugurados restaurantes daquela nova avenida que contorna ao longo o museu.
Estou sufocado e extremamente cansado disso tudo.
Perante a renovação nada fica de pé.
Alastra-se como o gás das lâmpadas que recentemente iluminam algumas poucas ruas, mas a luz não se espalha como a destruição.
Essa confusão tomou conta de toda a cidade.
Maquinas.
Correria.
Aglomeração.
Ainda restaram alguns transeuntes da honrosa turba que só agora se dissipava e que como feridas abertas pela sociedade se escondiam atrás de farrapos imundos depois do desvio de atenção promovido pela modernidade.
Senti saudades.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
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